12 de dezembro de 2012

"Feminismo é a noção radical de que mulheres são gente"

Pode parecer algo bem óbvio para quem lê. Claro que mulheres são gente, quem discordaria disso? Por que as feministas gostam de repetir essa frase?

A Simone de Beauvoir é uma das principais teóricas feministas, e tem uma das primeiras e principais obras feministas já escritas, O Segundo Sexo. Logo na introdução do livro, entre várias outras declarações, ela diz que a mulher é o Outro. Nas palavras da própria Beauvoir:

“A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.”

Isso pode ser comprovado de várias maneiras, desde o uso de “o homem” no lugar de “a humanidade”, até as próprias convenções sociais. Em primeiro lugar temos os homens, e somente então as mulheres. Na tradição judaico-cristã* e na islâmica, Deus criou o homem, Adão, e depois a mulher, Eva, a partir dele e em função dele. Na mitologia grega, os deuses criaram os homens, e então a primeira mulher, Pandora, como punição a eles. O conceito de que a mulher é o que vem depois, a segunda opção, ou o segundo sexo, é difundida pela sociedade, e a partir dela vem a maneira como a sociedade trata as mulheres.

Pronto, está explicada a frase tão usada. A sociedade trata o homem como o padrão. Ser homem e cissexual é o padrão, e aqueles que não são homens cis são o Outro – isso inclui mulheres cis e todas as pessoas trans*. O Feminismo nada mais é do que a afirmação de que não existe esse Outro, esse grupo secundário que só “é” em função do Sujeito. É a crença de que as mulheres são tão Sujeito quanto os homens, e a partir disso, a defesa de que elas tenham direitos e deveres iguais aos deles, de que a posição delas na sociedade seja a de igualdade.

As mulheres são gente. Nem inferiores, nem superiores, nem primárias nem secundárias. Elas simplesmente são gente, e devem ser tratadas como tal, e ter seus direitos garantidos como tal. O Feminismo é isso, ele busca essa igualdade. Qualquer definição correta do feminismo afirma isso, igualdade. Por isso o feminismo não é o oposto do machismo, por isso não implica em misandria, por isso ele não implica que as mulheres são superiores. Está em qualquer dicionário, em qualquer enciclopédia, está até mesmo na Wikipedia em Português.

Pessoas desinformadas tentam desqualificar o movimento falando sobre como feministas querem privilégios, sobre como elas odeiam os homens, sobre como querem ser superiores aos homens. Eu não conheço nenhuma feminista que concorde com isso – na verdade, discordar disso é a única coisa que eu vejo todas as feministas concordarem. Exceções existem, mas elas não definem nem falam por todo o movimento.

Mulheres são gente, ninguém discorda disso. Devem, então, ter a condição de “gente” assegurada, os direitos e os deveres. Isso é o Feminismo.  Não tem como ser mais simples.

*Existem divergências.

7 de novembro de 2012

A Bela e a Fera – Um conto de fadas feminista

Era uma vez, em uma terra distante, um jovem príncipe que vivia em um maravilhoso castelo. Apesar de ter todos os privilégios possíveis, o príncipe era mimado, egoísta e indiferente às condições sociais das minorias. Certo dia, uma linda feiticeira, ao perceber o nível de alienação e futilidade em que ele se encontrava, o puniu transformando-o em uma horrível Fera, para que ele mesmo percebesse o que era estar em uma posição vista como inferior perante a sociedade.

Envergonhado, o príncipe se escondeu em seu castelo, sentindo pena de si mesmo ao invés de ir atrás de conhecimento para reverter sua própria situação de ignorância. A feiticeira havia dito algo sobre encontrar verdadeiro amor e aprender a tratar os outros como respeito para reverter o feitiço, mas como alguém poderia amá-lo, sendo ele tão horrível assim?

Enquanto isso, em uma pequena vila da França, vivia Belle, uma jovem feminista independente e conscientizada. Todos a julgavam e a limitavam por sua beleza, recusando-se a enxergar qualquer característica dela além de sua aparência física. Belle se aceitava como ela era, porém não queria ser reduzida somente a isso, e dedicava seu tempo expandindo suas visões de mundo através da leitura e da observação da vida cotidiana. A jovem sonhava em conhecer o mundo, porém sentia-se na posição de ajudar e cuidar de seu velho pai, Maurice, pois sabia como havia dificuldades em se ter uma idade avançada, e como a sociedade tinha um preconceito contra isso.

Ela era constantemente assediada por Gaston, um masculinista que, por considerar todas as mulheres da vila vadias por suas formas de se vestirem e se comportarem, acreditava ter encontrado na figura discreta de Belle a mulher perfeita para seus sonhos de uma esposa-servente. Enquanto outras mulheres exerciam sua liberação sexual ao se insinuarem para ele, Gaston continuava a perseguir aquela que o ignorava, e à noite, na taverna, ouvia de seus amigos que ele estava sendo colocado na “friend-zone”.

Em uma adorável manhã, o pai de Belle iniciou uma viagem, deixando a filha sozinha tomando conta da casa. Porém, ele se perdeu na floresta, e enquanto fugia de lobos que tentavam atacá-lo, acabou invadindo o castelo da Fera. O ex-príncipe, muito apegado ao conceito de propriedade, achou-se no direito de prender Maurice em um calabouço. Ao saber disso, Belle se ofereceu para tomar o lugar dele, evitando assim que o pai tivesse que permanecer em instalações com condições deploráveis.

A Fera, que não havia aprendido nada no período de tempo passado entre o feitiço e o momento que conheceu Belle, a tratou com agressividade e falta de educação. Belle estava convicta que a Fera era totalmente errada em tudo na vida, desde a maneira de tratar as pessoas (idosos em calabouços, para começar), até seus problemas com controle de raiva passando pelas posições políticas e sociais dele, o que não a tornava nada propensa a querer ter qualquer contato com ele. Assim, sozinha e isolada, a inteligente jovem travou relações com os serventes do castelo, criaturas objetificadas pelo seu patrão, com quem ela aprendeu valiosas lições sobre gentileza e composição musical. 

Após um surto de raiva da Fera, Belle tentou fugir e reconquistar sua liberdade, mas também foi atacada por lobos e precisou ser resgatada. Infeliz por ser obrigada a reconhecer que não possuía força física necessária para se defender contra uma matilha de animais furiosos, ela se viu obrigada a reconhecer que todos têm suas limitações, se dispondo então a cuidar das feridas da Fera, até porque ajudar os outros não machuca. Ele, em retribuição ao ato de gentileza dela, permitiu que ela tivesse acesso a todos os livros de sua incrível, extensa e jamais utilizada biblioteca. Assim, com algumas concessões de ambas as partes, a convivência deles melhorou consideravelmente.

Em uma mágica noite, eles compartilharam um agradável jantar e tiveram uma longa conversa, na qual Belle expôs a teoria básica feminista para a Fera, tentando fazê-lo reconhecer seus privilégios como homem cis e heterossexual. Ela falou sobre os males do machismo, rebatendo cada argumento desinformado que a Fera lançava contra ela, como “mas homens e mulheres realmente são diferentes”, “mas as mulheres não querem igualdade, querem privilégios” e “hoje em dia as mulheres já conquistaram todos os direitos possíveis, e até mais”.

Apesar de relutante, a Fera considerou o discurso Belle, o que fez com que o conceito que ela tinha dele melhorasse muito. Afinal, não é sempre que as pessoas já vêm conscientizadas, e Belle concluiu que disposição para mudança também era muito bom. No final da noite a Fera permanecia na mesma posição, ainda defendendo pontos de vista que Belle já tinha rebatido e destruído, mas talvez com um pouco mais de tempo ele tivesse finalmente declarado uma mudança de visão, se uma terrível notícia não tivesse escolhido aquele horário para chegar.

Justo quando ambos finalmente admitiam que apesar dos pesares eles estavam felizes com a companhia um do outro, Belle descobriu que seu pai estava sozinho e doente, após ser desacreditado por todos da sua pequena e cruel vila. Compreendendo que ele não tinha como manter nenhum ser humano prisioneiro, pois todos são livres para viver a própria vida e ninguém jamais pertenceria a ninguém, a Fera permitiu que ela fosse até o encontro de seu pai, mesmo que isso significasse nunca mais vê-la. 

Belle conseguiu resgatar seu pai, mas eles ainda estavam sujeitos a percepções arcaicas sobre doenças mentais, etarismo e ableísmo. Ela, em desespero, resolveu comprovar que o motivo do pai estar sendo considerado louco – ter dito que havia um monstro terrível vivendo em um castelo – era verdade, ao invés de rebater esses conceitos de loucura e a limitação das pessoas. Todos nós cometemos alguns (ou muitos)erros na vida.

Como era de se esperar, os habitantes da vila chegaram a conclusões precipitadas baseadas em puro preconceito, concluindo que a Fera era perigosa e deveria ser liquidada só porque de fato ele era um monstro, e não dos mais bonitos. Gaston, o caçador masculinista, seguindo seu papel idealizado de macho provedor, decidiu ir atrás da terrível criatura e livrar todos do perigo eminente. Assumindo finalmente o papel de heroína da sua própria história, Belle concluiu que era sua vez de salvar a Fera. Não só porque ele já tinha salvado ela em outra situação ou porque o motivo de uma multidão enfurecida estar indo atrás dele era porque ela tinha levado eles a isso (mesmo que não intencionalmente) mas porque era a coisa  certa a se fazer – se arriscar para salvar alguém, fazer valer sua força interna.

A Fera, ao ser informado que a população de uma pequena vila se aproximava para matá-lo, decidiu que estava deprimido demais com sua recente perda para se importar. Seus serventes objetificados tiveram que tomar a frente da proteção do castelo, porém não foram capazes de impedir que Gaston chegasse até seu patrão. Gaston, não feliz em tentar matar a Fera, lançou mão de um ataque psicológico, insinuando que uma pessoa como Belle jamais amaria alguém como a Fera, em um discurso padrão e muitas vezes eficaz.

Porém, naqueles últimos tempos, algo havia mudado no ex-príncipe. Os comentários de Belle o fizeram entender que os ideais de beleza e os papéis de gênero que a sociedade difundia não eram corretos, e não havia porque se sujeitar a eles. Gaston era somente um ser desprezível e misógino, incapaz de entender questões como respeito e igualdade – algo que a Fera já não podia mais ignorar. Revoltado com as injúrias que Gaston continuava dizendo, atacando mulheres, homossexuais, pessoas trans* e toda e qualquer minoria possível e existente, ele encontrou forças para lutar de volta, defendendo o que ele acreditava ser certo.

Belle chegou a tempo de ouvir o discurso inflamado que a Fera lançava contra Gaston. Porém, enquanto ele falava, o masculinista aproveitou para lançar-se fisicamente contra ele. Ao ver que a jovem havia retornado e encontrando forças no amor que sentia por ela, a Fera revidou o ataque, e com a ajuda de Belle (que não ia aceitar ficar só olhando) conseguiram encurralar Gaston, que por fim pediu clemência por sua vida. A Fera finalmente voltou-se para Belle, ainda surpreso por ela ter voltado quando ele havia a deixado ir, e ela ia iniciar um novo discurso sobre liberdade para fazer o que ela quisesse e se arriscar por quem ela bem entendesse quando Gaston, em uma típica manobra masculinista, resolveu atacar a Fera pelas costas.

Como todas as ações têm uma conseqüência, tão logo ele fez isso, Gaston foi lançado para trás por sua própria força empregada, se desequilibrou e morreu (não havia sido mencionado antes, mas eles estavam em um local alto). A Fera caiu atingida no chão, e Belle ia correr para pedir ajuda - o que é a atitude correta a se tomar quando alguém está ferido e você não tem qualificação para remediar - mas ele pediu que ela ficasse, pois ele tinha algo a dizer. Reconhecendo por fim seus sentimentos por ela, a Fera, antes de morrer, agradeceu Belle por ter mostrado para ele uma nova visão de mundo, por tê-lo ajudado a compreender que estava errado, e por não tê-lo abandonado mesmo quando ele era ignorante e não percebia isso.

Ela ia responder que ela não tinha abandonado ele porque ele não tinha deixado, porque os lobos a atacaram, e para salvar o pai dela. Mas ele havia reconhecido o erro e tentado revertê-lo, havia lutado contra a opressão do patriarcado, a valorizado enquanto uma mulher independente. Por fim, ela entendeu que também o amava, precipitando-se então para beijá-lo, sem pensar que ele era uma Fera, que estava morrendo, que ainda tinha um monte de gente tentando atacar o castelo.

A Fera sobreviveu, e o feitiço finalmente foi quebrado, pois pelo menos para Belle o príncipe já não era mais uma Fera, e sim um ser humano decente e justo, que a respeitava e a amava. Juntos, eles aboliram a posição dos serventes e os reverteram das suas condições de objetos, reestruturaram os terrenos do castelo, garantiram uma vida decente e digna para o pai de Belle e se empreenderam na missão de tirar a vila de toda aquela ignorância, garantindo os direitos de todos.

Apesar de não terem se casado, os dois permaneceram juntos, em um relacionamento feliz e saudável, lutando por ideais igualitários para sempre.
Fim.


* Eu não conheço, e nunca vi, traduções para os termos ageism e ableism. Não é obrigação de ninguém me educar, mas agradeço se alguém souber e me falar. Todas as críticas são bem vindas, sempre.

5 de agosto de 2012

Uma nota

Muitas das críticas que eu li sobre a Marcha das Vadias afirmavam que ela era ineficaz. Não importava quantas pessoas saíssem nas ruas com seus cartazes, nada iria mudar. Falavam que a premissa era válida, mas a execução, do nome à veiculação, era equivocada. Que as pessoas não entenderiam do que se tratava. Que não teria efeito nenhum. Que estupradores não iriam parar de estuprar, ou agressores de agredir. E outras coisas nessa linha. Repare que todas essas críticas podem ser (e são), com algumas variações, aplicadas ao feminismo como um todo.


Eu não entendo o que essas pessoas acham que a Marcha tinha como objetivo e expectativa. Eu não entendo o que as pessoas acham que o feminismo tem como objetivo e expectativa.

Esse blog é meu, e tudo aqui é minha opinião. Não me sinto muito apta a falar por mais ninguém. Logo, não falo por todos que organizam e participam de manifestações e/ou do movimento. A minha posição é a seguinte: Eu não faço nada esperando uma grande mudança em retorno. No que se refere às minhas expectativas, elas são realmente baixas. Tenho esse blog mas não pretendo ser nenhuma intelectual feminista. Fiz e distribuo um zine sobre feminismo e das 200 cópias que estão por aí, se metade for lida e metade da metade fizer alguém considerar o que eu escrevi, já vai ser além do esperado. Eu participei da Marcha e se algumas das pessoas que passaram por ela ou ficaram sabendo dela refletirem sobre o porquê da sua existência, já é um bom resultado. Se o que eu faço pode ser considerado militância, eu digo que se no final, depois de tudo que eu fiz, a vida de uma pessoa mudar para melhor, já terá sido válido.

O que as pessoas que levantam todas essas críticas não percebem é que o próprio fato delas estarem criticando já é um resultado positivo. Que fazer as pessoas questionarem, e ainda mais fazer várias, é também uma conquista – talvez a maior delas. E até onde eu sei, ninguém tem como saber como todos os cidadãos do mundo foram atingidos por um protesto, ou por uma reclamação no Facebook de uma empresa. Não dá para saber se nada muda ou mudará mesmo. Por isso é importante falar sobre o que se considera errado, e continuar falando, e falar sempre. Porque ter liberdade é isso. Porque você nunca sabe quando alguém vai acabar te ouvindo.

12 de maio de 2012

Sobre a Lana Del Rey

Sabe a Lana del Rey? A cantora hipster que foi no SNL e gerou uma onda de ódio por parte das pessoas? A que todo mundo adora criticar porque ela é bonita (com ou sem cirurgia plástica), porque tem dinheiro, porque provavelmente só conseguiu uma carreira tão rápido por influência do pai dela e porque ela endossa essa imagem da mulher dependente que faz tudo pelo amor da vida dela? Pois é, eu adoro o álbum dela. Acho genial.

Vou dizer que antes de ler esse artigo, essa não era a minha opinião. Eu gostava de Video Games, porque é mesmo o tipo de música que eu gosto, eu concordava que não era lá a representação ideal de um relacionamento, nem que ela era um exemplo a ser seguido por outras mulheres. Mas a verdade é que o que ela fala, o que ela representa, se aplica ao pensamento de muitas mulheres. É igual a criticar a série Girls, da HBO, falando que aquelas personagens são insuportáveis e a história toda é horrível, quando a gente sabe que a vida das pessoas na verdade se aproxima muito mais daquilo do que com qualquer outra representação das mulheres na mídia. Mas eu vou deixar para falar mais de Girls depois.

Voltando à Lana, eu discordo de quem fala que ela representa esse ideal antifeminista de mulher.  Não me parece, nas músicas dela, que ela está dizendo que o comportamento dela é ótimo e aceitável, “hey, garotas, façam como eu faço”. E se você parar para ouvir o disco inteiro dela, tudo me soa muito mais justamente como uma critica a esse pensamento. Peguemos a música Lolita, a penúltima faixa da edição de luxo do álbum. Ela diz:

“I know what the boys want, I'm not gonna play”

A música inteira é sobre ela emulando esse conceito de Lolita, muito consciente do que faz. Faz com que eu pense que, talvez, o álbum inteiro seja ela emulando esse comportamento cômodo para apreciação masculina, mas tendo total noção disso. E mesmo que não seja o caso, existe outra música, definitivamente a minha favorita, que não abre outra interpretação da mensagem, para mim, completamente feminista. Vejamos This Is What Makes Us Girls:

This is what makes us girls/
We don't look for heaven and we put our love first/
Something that we'd die for it, It's a curse/ 
This is what makes us girls/
We don't stick together 'cause we put our love first

Você tem um resumo da concepção padrão da amizade feminina em um refrão de uma música de uma cantora que todo mundo parece pintar como uma imbecil sem cérebro. Vem alguém e me diz que ela está fazendo um desfavor às mulheres e à causa feminista, o que é muito estranho porque primeiro, essas pessoas não são as que parecem se importar muito com o feminismo, e segundo, quantas das cantoras que estão no topo das paradas estão falando algo assim? Talvez ela não seja a com maior qualidade musical, maior carisma ou apelo ao público, a mais original, mas o que ela fala se relaciona muito mais com como eu me sentia (e ainda me sinto, nos piores dias) do que uma Adele chorando as mágoas do fim do relacionamento dela de um jeito um tanto quanto passivo-agressivo que ninguém questiona.

A primeira vez que eu ouvi This Is What Makes Us Girls eu senti uma vontade imensa de falar para a Talita que a gente não poderia deixar cara nenhum ficar entre a gente, em circunstância nenhuma, o que eu realmente falei e o que precisava ser falado porque é algo que acontece de verdade. E a Lana pode não ser exemplo nenhum a ser seguido, e não vejo porque ela deveria ser, ou queira ser, mas ela está falando de sentimentos reais, que garotas normais sentem, sobre a inadequação e a vontade de ser resgatada por um homem perfeito e essa mistura de sentimentos que toda adolescente já sentiu, uma vez ou outra.


Lana Del Rey não precisa ser feminista, não é a obrigação dela representar um ideal de mulher forte e independente. Pelo menos, ela está falando para meninas sobre sentimentos comuns às meninas, o que já é muito mais do que todo o resto da indústria musical. E se muita gente não gosta dela, talvez seja por isso. Porque por mais que a imagem e a mensagem dela seja voltada à apreciação masculina, ela não parece se importar de verdade com os homens. Ela sabe o que eles querem, mas ela não vai brincar.

7 de maio de 2012

A agenda feminista

"The feminist agenda is not about equal rights for women. It is about a socialist, anti-family political movement that encourages women to leave their husbands, kill their children, practice witchcraft, destroy capitalism, and become lesbians."

- Pat Robertson, um cara que sabe das coisas.

Só para compartilhar essa genialidade com quem quer que esteja lendo. 

29 de abril de 2012

Existe uma causa mais importante que outra?‏

Algumas semanas atrás, eu estava pensando em escrever para cá e me encontrava dividida sobre qual assunto iria tratar. Em um mesmo dia, duas notícias pontuaram o machismo neste país: o julgamento de um homem acusado pelo estupro de três garotas menores de 14 anos, e o panfleto distribuído em uma universidade do Paraná que, uma “brincadeira”, fazia apologia à assédio sexual e objetificação feminina. Enfim, dois casos adoráveis, e enquanto eu me questionava se falaria sobre um ou outro, me peguei pensando em qual era pior, e qual era mais importante.

Certa vez, essa minha amiga argumentava que furar orelhas de bebês para colocar brincos era uma forma de distingui-las desde cedo pelo gênero, e que era também uma forma de tortura por infligir a criança à uma dor desnecessária. Eu concordei que era utilizado para separar meninas de meninos, e não tinha nenhum propósito concreto, mas que era uma tradição social e, para mim, inofensiva. Comentei que circuncisão em bebês, aceita por se tratar de uma prática cultural, era ao meu ver bem pior, e por último, que tortura era um termo muito forte para se referir a algo que não dura mais que segundos, não dói tanto assim e a criança não vai se lembrar mais tarde.

A discussão continuou e, em determinado momento, eu disse que para a causa feminista, furar orelhas de crianças era o menor dos pontos a serem abordados e enfrentados porque, frente a tantos outros, era quase insignificante. Essa amiga respondeu que se eu, uma pessoa que se considerava alinhada ao movimento, que se mantinha informada e disposta a questionar, achava aquilo sem importância, já mostrava quanta importância, de fato tinha. Não tiro a razão dela.

Existe, de fato, lutas maiores e mais importantes que outras? Causas que mereçam maior atenção, que sejam mais essenciais? Por um lado, meu impulso inicial é afirmar que sim. Entre violência doméstica e brincos e bebês, para mim é óbvio qual é mais urgente. Por outro, ainda que três menores estupradas e um agressor inocentado seja algo que acarreta maiores danos às vítimas, ainda faz parte da mesma problemática que estudantes de direito que acham aceitável afirmar que uma mulher é obrigada a dar.

Tudo faz parte de apenas uma questão social, o ato de enfeitar crianças de meses de idade denotando a necessidade de uma imagem de beleza e delicadeza, o de tornar aceitável "brincar" com algo que na realidade afeta milhares de mulheres e está relacionado com a noção de que elas são inferiores, e o de possibilitar que o poder judiciário tenha como julgar vítimas, não agressores, e ainda o fazer com o argumento de "inocência perdida".

Ainda, é esse tipo de argumento que boa parte da sociedade adora utilizar para justificar qualquer tipo de crítica social, dizer é ridículo lutar por qualquer outra causa quando existem assuntos mais importantes a serem tratados como violência, corrupção e carga tributária. Então, minha resposta é que ainda que eu pense que é mais necessário questionar as decisões do STJ, o importante, na verdade, é questionar. É identificar, ao menos, que algo não está certo. E se opor a isso. Alice Walker disse que a melhor maneira de tirar o poder de alguém é fazê-lo acreditar que sua voz não tem importância, e isso é verdade. Independente do que você queira defender, priorizar, o necessário é não se calar, e não achar que não é importante.

8 de março de 2012

E o dia da mulher

Hoje é 8 de março, dia internacional da mulher, e eu passei boa parte dele me segurando para não responder cada bombom e parabéns com um "me dá minha parte em salários iguais, direitos reprodutivos e lares seguros", mas convenhamos que se eu quisesse ou soubesse ficar quieta eu não teria um blog, e admito que com algumas pessoas eu comentei o absurdo que é reduzirem a gente a uma flor no nosso próprio dia. Sabe, o tipo de coisa simples que faz as pessoas te colocarem na categoria "extremista feminista" e tal.

Um tempo depois minha amiga me encaminhou um e-mail que ela tinha recebido, me perguntando se era aquilo que meu homem ideal me diria nesse dia. Eu não tenho ele aqui, mas no geral dizia que nós mulheres éramos os melhores "seres" que Deus tinha criado, que éramos superiores e maravilhosas e que esse dia existia para lembrar os homens, a escória (ou algo assim) deviam sempre agradecer por nós estarmos na vida deles.

O engraçado é que muita gente pensa assim. Que o feminismo é isso, que é desse jeito que esperamos que os homens pensem. As pessoas ignoram que se tem algo que todas as feministas concordam, é nos direitos iguais para homens e mulheres. E veja, isso não quer dizer que homens e mulheres são iguais, e sim que eles devem ter direitos, liberdades e deveres iguais.O feminismo no imaginário popular ou é mulheres queimando sutiãs ou o oposto do machismo, mulheres que querem privilégios e subjugar os homens. Eu mesma, antes de ser atingida por ele, pensava nos sutiãs e em uma coisa ou outra sobre liberdade sexual e trabalhar fora de casa - o que é outro nível de desinformação, o que acha que o que tinha para conquistar já foi conquistado e o resto é menos importante, e encheção de saco de gente sem ter muito o que fazer. Aliás, é a categoria em que minha amiga ainda se encontra.

Eu respondi para ela explicando isso, que meu "homem ideal" saberia que não só mulheres não são inferiores nem superiores aos homens, como também não faria geralizações sobre todo um gênero. Disse que ele também não tentaria fazer o dia ser sobre os homens, como o dia é para eles para eles agradecerem por nós estarmos aqui por eles. Ela perguntou se eu acredito mesmo que esse homem existe.

E eu estou escrevendo isso para dizer que sim, e que não acreditar é subestimar todos os homens, acreditar na burrice de todos eles. Estou escrevendo isso para falar que acreditar que mulheres são iguais e respeitá-las é o mínimo que um homem decente faz. E que sim, existem muitos deles por aí. Infelizmente não são a maioria, mas pessoas educadas e inteligentes também não são. E que sim, eu espero conhecer um, e que na verdade não me relacionaria com um homem que não fosse assim.

Não quero terminar um post hoje falando sobre homens, então fica aqui meus parabéns para todas as mulheres que apesar de tudo, estão aí sendo inteligentes, fortes, corajosas, bonitas e delicadas ou qualquer coisa que elas queiram ser. O dia de hoje nasceu com mulheres lutando pelo direitos delas, e continuaremos a lutar e reclamar e enfrentar tudo isso, dia após dia ♥

25 de fevereiro de 2012

Quando está muito, muito próximo de você

Ano passado eu mudei de área na empresa em que trabalho, vindo para um departamento onde eu sou a única mulher. Eu gosto do que eu faço e costumo gostar das pessoas com quem eu trabalho, o que não me impede de ter alguns conflitos com eles. Já virou costume discutir, ou pelo menos questionar as visões dos "meninos" - o pensamento é que se querendo ou não eu vou ouvir o que eles dizem, posso pelo menos argumentar,  mesmo que isso não venha a mudar a opinião de ninguém. O que não quer dizer que eu fique o tempo todo insistindo e reclamando com eles, o que não só seria contra-produtivo, como também minha paciência tem limite.

Chegamos então ao ocorrido alguns dias atrás. Um deles, comentando o carnaval, falou sobre como viajar com a namorada impede parte da diversão inerente ao período, principalmente sair com amigos e azarar garotas na praia. Eu perguntei, meio distraída, se nunca tinha ocorrido para ele que talvez essas garotas não gostassem de ser cantadas, e se ele não achava que elas tinham o direito de andar na rua sem ter que ouvir isso. O cat calling é um tópico comum para mim e qualquer pessoa envolvida com questões de gênero, certo, então nada de anormal nisso.

Ele respondeu que não via problema nenhum, afinal, era algo não nocivo e lisonjeiro, oras. Ele nem ao menos cogitava que uma garota poderia não gostar de receber esse tipo de atenção. Eu perguntei se ele gostaria se uma mulher que ele não tivesse interesse, nem achasse atraente, falasse para ele o que ele costuma falar para as meninas na rua, ao passo que ele disse que não se importaria, sem contar que ele acreditava ser atraente o bastante para ter o direito de fazer isso com qualquer uma.

Nesse ponto eu ri e voltei a trabalhar, foi quando eu resolvi não insistir e reconheci derrota. E eu tinha esquecido completamente a conversa quando, a tarde, eu abri o site da Folha para a ronda diária de notícias, e vi essa. Nem tenho o que falar sobre o ocorrido em si, não é como se fosse novidade que coisas assim aconteçam. Esse homem ter uma arma e ter usado contra a mulher é outra problemática, e tirando isso, o que sobra é o já conhecido e comum machismo.

Quem se dignar a ler os comentários da matéria que eu linkei vai entender exatamente do que eu estou falando – e aqui eu vou tentar não insinua que, só de ser a Folha, já dá para ter uma idéia. Pouco relacionado ao assunto, mas é um péssimo hábito e defeito meu, ler esse tipo de comentário que eu sei que não vai me acrescentar em nada e só vai me deixar irritada. Continuando. Eu leio essas pessoas culpando a vítima, algumas até endossando o comportamento do homem, pouquíssimas demonstrando alguma noção, e entendo como nada mais do que uma amostragem do que a sociedade, no geral, pensa. Não tem nada de surpreendente ou inesperado ali. E eu sei e você sabe que é por causa dessa mentalidade que essas coisas continuam acontecendo.

Mas até então são anônimos na internet, pessoas sem face se escondendo atrás de um monitor. Eu não consigo imaginar esse comentarista da Folha. Eu sei o que ele pensa, como ele age, posso até caracterizá-lo como direitista, reacionário, misógino e de classe média, mas não tenho uma imagem física. De certo modo, mesmo ele sendo real, ele em si não existe. Isso até o momento em que eu falo sobre a notícia para o rapaz de alguns parágrafos acima, por estar relacionado com o que tínhamos discutido mais cedo.

E ele é o comentarista da Folha.

Eu ouço ele dizendo “O que ela esperava? Carnaval, na rua, às quatro da manhã? Vai ficar irritada, ofendida, com alguém dando atenção para ela?”. E ainda outro, entrando no assunto, “Homem nenhum aceita levar tapa na cara”. Ouço que é azar dela que ele estivesse armado, mas não era mesmo para ela fazer aquilo, rejeitá-lo, ofendê-lo. Eu ouço uma defesa do porte de armas, ouço esse garoto, que não tem mais do que 25 anos, faz faculdade, trabalha comigo, dizendo que tem uma arma e que não dá mesmo para controlar um homem armado.

Eu fico revoltada e chocada, mas a verdade é que eu já sabia que eles eram assim, só não tinha admitido. Eu sabia porque eu já tinha ouvido antes diversas “piadas” machistas, defesas à agressão, mas tinha falado para mim mesma que era só brincadeira deles, que eles não fariam isso de verdade. Mas em uma tarde, nessa tarde, para eles normal (e eles nem vão se lembrar depois dessa conversa!), eu entendo isso. Não são mais os anônimos, as pessoas sem nome nem face. São homens que eu conheço, que me tratam bem, que quando eu me esqueço, até considero legais.

São eles que, perdendo a calma, agridem essa mulher. Que um dia em que calha deles estarem armados, alcoolizados e mais uma conjuração de fatores, talvez matem essa mulher. E eles não estão mais na notícia, estão na minha frente.

26 de janeiro de 2012

Até onde vai o seu feminismo.

Eu tinha outra ideia para outro post para ser publicado em outro dia, mas isso veio e atropelou tudo. Eu não gosto de falar sobre um assunto quando ele é muito recente, porque eu preciso de tempo para processar meus pensamentos e chegar em um consenso. Mas nesse caso, acho que vale a pena escrever no momento. Então vamos lá.

Estava eu no meu feed do Google Reader quando vejo um post do Alex Castro, intitulado "teste de feminismo". Era sobre um artigo publicado no Papo de Homem, que é um site que me dá sentimentos muito conflitantes. Enfim.

Esse artigo deve ser uma das melhores coisas que eu já li em português. Sério, é genial. Não apenas ele, mas também os comentários que o acompanham. É um artigo absurdamente polêmico publicado em um lugar em que o projeto editorial até tem boas intenções, e alguns dos leitores também, mas a grande maioria é justamente o que você poderia esperar de uma página chamada "Papo de Homem". Vou dizer que nesse caso até que não foi tão ruim, e eu já vi coisa muito pior lá. De qualquer modo, o texto em si já é uma pérola.  É essa garota, protegida pelo anonimato, dizendo com todas as letras "Hoje, quando mais grana no banco, mais molhada eu fico."

Por que o Alex Castro chama de teste de feminismo? A resposta simples é que a pessoa tem que ler e ver se é capaz de dizer, sem julgar a autora, "é o corpo dela, a vida dela, ela faz o que quiser e não sou eu que vou ficar julgando isso". Você não precisa concordar com o que ela diz, não precisa fazer o mesmo. Precisa entender que ela está no direito dela e que não, ela não é uma puta, e nem você tem o direito de chamá-la de puta. Mas a minha questão aqui é outra. O discurso dela pode ser considerado feminista? Vou logo dizendo que nunca achei, em lugar nenhum, uma resposta satisfatória para essa questão. Para mim, junto com a pornografia, é um dos assuntos mais complexos para serem discutidos no feminismo, e nunca vi ninguém chegar em um consentimento. 

O ponto é o seguinte: Ela está expondo o ponto de vista dela, fazendo o que ela quer com a vida dela e com o corpo dela. Isso é visto como uma atitude feminista. Mas quando essa atitude está ligada a padrões e imposições sociais machistas, continua sendo uma atitude feminista? É igual à mulher que decide se submeter ao marido, não trabalhar, cuidar da casa, obedecê-lo e não questioná-lo. Ela está exercendo um direito dela enquanto mulher (feminismo), mas quando o que ela está escolhendo fazer é claramente machista, o que vence? Dá para desassociar uma coisa da outra, ignorar o plano de fundo e as questões sociais por trás dessa decisão, e não questionar a escolha dessa pessoa?

Meu primeiro impulso seria dizer "Sim, se é uma escolha consciente dela, não sou eu que vou criticar". Mas principalmente no exemplo que eu dei, em que essa escolha, como nós sabemos por repetidas experiências, coloca a mulher em uma situação complicada, onde a dependência de um homem pode vir a ser (e em muitos, muitos casos é), prejudicial a essa mulher, nós podemos simplesmente assumir essa postura de "É a vida dela, a escolha dela", e ignorar tudo que decorre disso? E essa atitude é feminista?

Algo que as feministas da primeira geração sempre questionam sobre o movimento atual (pelo menos pelo o que eu observei, e posso estar errada) é sobre quantas concessões nós abrimos hoje em dia. Sobre como damos muito valor para o exercício da vontade feminina, da sexualidade feminina, e começamos a ignorar justamente isso, os ideais e os raciocínios por trás deles. Uma mulher é livre para transar com quantos homens quiser, se submeter ao que quiser, usar (ou não usar) a roupa que quiser, mas quando isso coincide justamente com o que a maioria dos homens quer e acha que é correto para uma mulher fazer, deveríamos mesmo continuar batendo palmas e exaltando o feminismo dessa mulher? A Sasha Grey é feminista? Cumshot, feito com consentimento, é algo tão feminista quanto ser pró-escolha? Isso é mesmo empowerement? Oh.

Não vou negar que tem uma série de problemas no texto dela, principalmente o racismo. E não acho que tenha sido a intenção da autora dar uma perspectiva feminista ou qualquer coisa assim, então que fique claro que isso sou eu analisando o que ela disse do meu ponto de vista. E eu estou explorando por opção um aspecto bem isolado dele, porque foi o que eu fiquei pensando depois de terminá-lo, mas existem diversas outros pontos ainda piores relacionados a ele, como os comentaristas falando que ela merece ser tratada como mercadoria, que não importa o que ela diga, ela é uma puta, e mulheres falando sobre como elas pensam e agem diferente da autora, e consequentemente, são melhores do que ela. Mas eu escolhi esse viés porque é o que eu mesma não consigo achar uma resposta.

Como eu já disse, minha posição é não criticar a sexualidade alheia, ou as escolhas de uma mulher classificando como feministas ou não. Mas é algo que realmente me deixa pensando... Será que com o tempo, o feminismo foi mesmo abrindo suas opiniões para se acomodar um pouco, e fomos relaxando em algumas posições que não deveríamos ter relaxado? Claro que eu nunca vou ignorar a voz e a posição dessas mulheres, e isso não é o Lingerie Day, mas não existe uma diferença entre mulheres tomando posições conscientes e sabendo de suas outras escolhas, e as mulheres que não? Não?

16 de janeiro de 2012

Da necessidade de um relacionamento.

"Você pode dizer que não precisa de ninguém, que não está interessada em homem nenhum, mas se fosse assim, você seria tão feliz, simpática e amigável quanto todos os outros que admitem que precisam de companhia e de alguém do lado."

Eu fui pega pela histeria de ter um namorado por um período que, aproximadamente, compreende dos meus 13 aos meus 18 anos. Isso é bem típico da adolescência, na verdade, é bem difícil encontrar alguém que escapou incólume. Mas havia algo que complicava bastante a minha situação: eu era feia. E com feia, eu quero dizer gorda. Vou deixar bem claro logo no início que esse foi, e ainda é, um dos maiores dos meus problemas, e nem tanto por mim mesma, mas pelo o que minha mãe (a mesma do post anterior, sabe), sempre disse e sempre fez. Demorou, mas eu fui aprendendo a lidar e aceitar quem eu sou, e isso é assunto para outro post, mas nesse período crítico que eu estou falando, influenciou muito.

Vejamos, no começo, eu ainda ouvia que eu tinha que me preocupar em ser inteligente e estudar, porque eu não tinha idade para namorados. Mas depois o discurso mudou. Se até então devia crescer intelectualmente, em determinado ponto a história mudou para como seria bom eu ter um namorado para eu "deixar de ser tão grossa e irritada". E se eu já ouvia isso antes, a ideia de que eu tinha que emagrecer para namorar, porque ninguém iria me querer do jeito que eu era, também se intensificou. De uma hora para outra, eu tive que começar a ouvir que pouco importavam minhas ambições literárias ou intelectuais, que eu deveria aceitar que todos querem amor e relacionamentos, e que eu sendo do jeito que eu era, nunca iria conseguir um.

Não queria fazer isso ser tanto sobre mim, porque na verdade é algo que é disseminado para todo mundo, e principalmente as mulheres. Os filmes sempre falam sobre isso, livros, músicas, novelas, seriados, comercias, todos eles passam até a exaustão esse conceito da necessidade do amor, de ter outra pessoa para ser feliz, completo e realizado. E não adianta dizer que não liga para o que a mídia diz, porque está por todos os lados - as pessoas vivem falando disso, e se preocupando com isso, até o ponto de parecer que elas falam e se preocupam com isso. Não importa se você escapou das milhares de matérias que a Capricho fez sobre namorados, meninos e relacionamentos. Não importa se você não leu Crepúsculo e nunca gostou dos filmes da Disney. Não importa se suas amigas são mulheres independentes e focadas na carreira, e seus pais te educaram num ambiente livre desse tipo de influência. Em algum momento, você vai se ver de frente com essa mensagem sendo transmitida em algum lugar. E a mensagem é: Sua felicidade depende de um relacionamento.

Homens também sofrem com isso. Seria injusto dizer que essa pressão não pende também para o lado deles, que não é exigido deles estar em relacionamentos. Mas, para eles, também são disseminados outros tipos de objetivos, como ter uma carreira de sucesso e cultivar diversos outros interesses que vão desde o automobilismo ao futebol, sem que mulheres estejam diretamente relacionadas a nenhum deles. Já as mulheres, mesmo que hoje em dia sejam incentivadas a ter carreiras e estudar, sempre fica bem claro que não se deve deixar de lado o objetivo maior de sua existência.

No final das minhas férias, eu, sem ter muito o que fazer, e ao invés de sentar com um livro e aproveitar meu tempo de maneira útil, resolvi assistir Sex and the City. Uma temporada e seis horas da minha vida depois, eu estava num estado totalmente alterado. Eu tinha acabado de ver quatro mulheres, com boas situações e carreiras que elas gostavam, passarem todo e qualquer momento de suas vidas falando, discutindo, conhecendo e se preocupando com homens. Em um momento ou outro a série até toca em uma questão menos banal e até interessante, inclusive sobre essa pressão sobre as mulheres, mas os momentos são tão raros que desaparecem nas cenas de compras e filosofias sobre relacionamentos. E isso não é um filme ou outro, é uma série de muito sucesso que por anos representou e foi referência para uma geração de mulheres. 

A citação que inicia esse post foi mandada para mim por alguém que, surpresa, é da minha família. Isso porque depois de muito tempo e disciplina, uma verdadeira batalha em para deixar de ser tão fixada, eu comecei a aprender que ter um namorado não era mais importante do que viver uma vida que me fosse satisfatória, cultivar meus interesses, fazer o que eu gostava e agir conforme eu acreditava, sem me moldar ou me conformar para merecer ter um homem para chamar de meu. Mesmo assim, tenho que ouvir que isso não passa de ilusão minha, porque se eu fosse mesmo feliz assim, seria dócil e simpática. 

O que eu posso dizer? Hoje, eu acredito que ter passado por esse período da minha vida sem estar em um relacionamento, sem me dedicar exclusivamente a ele e ficar obcecada com ele (que é o que eu acho que teria acontecido, dada minha personalidade e minhas disposições naquela época), foi essencial para que eu me tornasse quem eu sou hoje. Essencial para que eu pudesse ter usado meu tempo para cultivar outros interesses, me divertir com meus amigos, ter outra perspectiva sobre a vida. Mas mesmo assim, não é fácil, e vez ou outra eu começo a cair nesse pensamento fixo sobre ter um namorado.

Queria dizer, por último, que não é errado estar em um relacionamento. Eu acredito que as pessoas sejam felizes em boa parte deles, e todo mundo tem o direito de fazer o que quiser. O que eu estou questionando é a imposição para todos procurarem a mesma coisa, sempre. E as consequências que essas imposições trazem, como muitos casos em que alguém vai se sujeitar a diversos tipos de situações porque acredita que precisa ter um companheiro, ou uma companheira. Todo mundo deveria ser capaz de ficar sozinho, porque se você não consegue ficar só com você mesmo, não deveria estar com outra pessoa também. E isso não se aplica somente a mulheres em relacionamentos heterossexuais, se aplica a absolutamente todo mundo, porque essa mensagem é passada para todos, homens e mulheres, de qualquer orientação sexual, e em qualquer tipo de relacionamento. 

Esse tipo de pensamento me ocorreu pela primeira vez quando eu li esse post, logo que comecei a me interessar pelo feminismo. Eu recomendo seriamente a leitura dele, de verdade. A Cely trata muito bem sobre todas as consequências desse tipo de mensagem para as mulheres, e sobre o que pode ser feito para fugir dela. 

1 de janeiro de 2012

Sobre maus julgamentos. E a falta de conclusões.

Enquanto assistíamos o final de A Cor Púrpura, uma pessoa - uma mulher - faz o seguinte comentário:

"Se o padrasto dela não tivesse estuprado ela, ela não teria os filhos".

(Se alguém não conhece nada sobre o livro, ou o filme, recomendo conhecer. Eu me interessei em ler depois de ter visto uma recomendação, e passei os últimos minutos de 2011 terminando de lê-lo. Eu vou falar sobre a história e principalmente o final, então fica o alerta para quem estiver interessado em descobrir sozinho).

Mais de duas horas assistindo a história de uma mulher, pobre, negra, que foi estuprada por quem ela acredita ser o pai dela, teve dois filhos dele, teve esses filhos tirados dela, foi dada para casar com um homem que bate nela e foi separada por ele da irmã, que é a única pessoa que ela ama. Mais de duas horas da história dessa mulher, que não tem o mínimo de valor próprio e autoestima, e tem que passar por um longo processo de aprendizado para começar a lutar por ela mesma e encontrar alguma felicidade na vida. Então, no final dessa história, temos uma cena linda e estupidamente feliz considerando tudo que aconteceu até ali, onde a irmã dela retorna muitos anos depois, com os filhos dela. Essa mulher está abraçando esses dois filhos quando ocorre a alguém fazer esse comentário (eu vou colocar de novo para ficar bem claro):

"Se o padrasto dela não tivesse estuprado ela, ela não teria os filhos".

Demorou certo tempo para eu raciocinar e ver se entendia o que aquilo queria dizer. A Celie (a personagem principal que eu não nomeei no parágrafo anterior) é estuprada pelo padrasto. Tem dois filhos dele que depois são tirados dela. Muito tempo depois ela reencontra os filhos, no que provavelmente é o momento mais feliz da vida dela. Ela os abraça, chorando de felicidade:


Ah, e a Celie também é lésbica. Isso é muito importante. (Eu coloquei o amor da vida dela, a Shug, no último quadrinho, onde ela está sorrindo e observando.)

Então eu fiz a associação. O que o comentário quis dizer: Olha como ela está feliz, abraçando os filhos. Filhos que ela não teria porque ela é lésbica. Filhos que ela teve porque o padrasto dela a estuprou, e depois ela tornou-se infértil. Viu, que coisa? Se o padrasto dela não tivesse a estuprado, ela não teria filhos, porque ela é lésbica. E olha como ela está feliz, por ter filhos e revê-los.

A pessoa que disse isso foi a minha mãe.

Como alguém pode dizer isso, ou sequer ter essa linha de pensamento e fazer essa associação? E ainda resolver falar em voz alta, como um comentário engraçado/espirituoso? Veja, não estamos falando de uma pessoa completamente ignorante, de uma pessoa inerentemente misógina e homofóbica. Não estamos sequer falando de alguém que acha legal  ou aceitável ser "politicamente incorreto". Ela não estava querendo chocar, ou ser controversa. Ela só falou o que ela pensou na hora.

Acho que uma pessoa não precisa ser feminista ou militante pelos direitos LGBT para saber tudo que está errado nesse comentário. Entendo que pessoas envolvidas com essas causas tenham maior facilidade para identificar um discurso problemático assim, até porque conscientização é justamente isso. Porém, qualquer um saberia como isso é errado. De qualquer jeito, minha mãe, uma mulher digamos que comum, falou isso. 

Verdade seja dita, eu não sei o que pensar sobre isso. Tanto não sei que estou escrevendo aqui para ver se chego em algum lugar. Eis algumas alternativas em que eu cheguei:

  • Talvez até mesmo pessoas boas, que não são misóginas ou homofóbicas ou racistas, pensam coisas assim por estarem tão inseridas em uma sociedade que ainda perpetua esse tipo de ideia. 
  • Talvez seja normal pensar coisas assim quando não se tem muito conhecimento, e não é algo ruim, é só ignorância. 
  • Talvez minha mãe, e outras pessoas ao meu redor, sejam mais machistas e homofóbicas do que eu penso, e eu só não percebo porque abro concessões para elas, ou porque elas geralmente não expressem isso para todo mundo ouvir.

Se alguém souber, favor avisar. Verdade seja dita, muitas vezes eu não consigo chegar a uma boa conclusão. Esse blog foi criado há algum tempo, porque eu queria escrever sobre feminismo, o que eu ia aprendendo e concluindo com ele, mas eu nunca tinha escrito nada porque eu acho difícil dizer com certeza "é isso". 

No final, eu tive uma discussão feia com a minha mãe. Feia mesmo, porque eu falei para ela que não achava o que ela tinha dito aceitável, e que só uma pessoa muito problemática teria conseguido dizer algo assim.Estou aqui me perguntando se eu fui muito dura com ela, e se eu deveria ser mais compreensiva e menos explosiva. 

Como eu disse, não tenho muitas respostas.