26 de janeiro de 2012

Até onde vai o seu feminismo.

Eu tinha outra ideia para outro post para ser publicado em outro dia, mas isso veio e atropelou tudo. Eu não gosto de falar sobre um assunto quando ele é muito recente, porque eu preciso de tempo para processar meus pensamentos e chegar em um consenso. Mas nesse caso, acho que vale a pena escrever no momento. Então vamos lá.

Estava eu no meu feed do Google Reader quando vejo um post do Alex Castro, intitulado "teste de feminismo". Era sobre um artigo publicado no Papo de Homem, que é um site que me dá sentimentos muito conflitantes. Enfim.

Esse artigo deve ser uma das melhores coisas que eu já li em português. Sério, é genial. Não apenas ele, mas também os comentários que o acompanham. É um artigo absurdamente polêmico publicado em um lugar em que o projeto editorial até tem boas intenções, e alguns dos leitores também, mas a grande maioria é justamente o que você poderia esperar de uma página chamada "Papo de Homem". Vou dizer que nesse caso até que não foi tão ruim, e eu já vi coisa muito pior lá. De qualquer modo, o texto em si já é uma pérola.  É essa garota, protegida pelo anonimato, dizendo com todas as letras "Hoje, quando mais grana no banco, mais molhada eu fico."

Por que o Alex Castro chama de teste de feminismo? A resposta simples é que a pessoa tem que ler e ver se é capaz de dizer, sem julgar a autora, "é o corpo dela, a vida dela, ela faz o que quiser e não sou eu que vou ficar julgando isso". Você não precisa concordar com o que ela diz, não precisa fazer o mesmo. Precisa entender que ela está no direito dela e que não, ela não é uma puta, e nem você tem o direito de chamá-la de puta. Mas a minha questão aqui é outra. O discurso dela pode ser considerado feminista? Vou logo dizendo que nunca achei, em lugar nenhum, uma resposta satisfatória para essa questão. Para mim, junto com a pornografia, é um dos assuntos mais complexos para serem discutidos no feminismo, e nunca vi ninguém chegar em um consentimento. 

O ponto é o seguinte: Ela está expondo o ponto de vista dela, fazendo o que ela quer com a vida dela e com o corpo dela. Isso é visto como uma atitude feminista. Mas quando essa atitude está ligada a padrões e imposições sociais machistas, continua sendo uma atitude feminista? É igual à mulher que decide se submeter ao marido, não trabalhar, cuidar da casa, obedecê-lo e não questioná-lo. Ela está exercendo um direito dela enquanto mulher (feminismo), mas quando o que ela está escolhendo fazer é claramente machista, o que vence? Dá para desassociar uma coisa da outra, ignorar o plano de fundo e as questões sociais por trás dessa decisão, e não questionar a escolha dessa pessoa?

Meu primeiro impulso seria dizer "Sim, se é uma escolha consciente dela, não sou eu que vou criticar". Mas principalmente no exemplo que eu dei, em que essa escolha, como nós sabemos por repetidas experiências, coloca a mulher em uma situação complicada, onde a dependência de um homem pode vir a ser (e em muitos, muitos casos é), prejudicial a essa mulher, nós podemos simplesmente assumir essa postura de "É a vida dela, a escolha dela", e ignorar tudo que decorre disso? E essa atitude é feminista?

Algo que as feministas da primeira geração sempre questionam sobre o movimento atual (pelo menos pelo o que eu observei, e posso estar errada) é sobre quantas concessões nós abrimos hoje em dia. Sobre como damos muito valor para o exercício da vontade feminina, da sexualidade feminina, e começamos a ignorar justamente isso, os ideais e os raciocínios por trás deles. Uma mulher é livre para transar com quantos homens quiser, se submeter ao que quiser, usar (ou não usar) a roupa que quiser, mas quando isso coincide justamente com o que a maioria dos homens quer e acha que é correto para uma mulher fazer, deveríamos mesmo continuar batendo palmas e exaltando o feminismo dessa mulher? A Sasha Grey é feminista? Cumshot, feito com consentimento, é algo tão feminista quanto ser pró-escolha? Isso é mesmo empowerement? Oh.

Não vou negar que tem uma série de problemas no texto dela, principalmente o racismo. E não acho que tenha sido a intenção da autora dar uma perspectiva feminista ou qualquer coisa assim, então que fique claro que isso sou eu analisando o que ela disse do meu ponto de vista. E eu estou explorando por opção um aspecto bem isolado dele, porque foi o que eu fiquei pensando depois de terminá-lo, mas existem diversas outros pontos ainda piores relacionados a ele, como os comentaristas falando que ela merece ser tratada como mercadoria, que não importa o que ela diga, ela é uma puta, e mulheres falando sobre como elas pensam e agem diferente da autora, e consequentemente, são melhores do que ela. Mas eu escolhi esse viés porque é o que eu mesma não consigo achar uma resposta.

Como eu já disse, minha posição é não criticar a sexualidade alheia, ou as escolhas de uma mulher classificando como feministas ou não. Mas é algo que realmente me deixa pensando... Será que com o tempo, o feminismo foi mesmo abrindo suas opiniões para se acomodar um pouco, e fomos relaxando em algumas posições que não deveríamos ter relaxado? Claro que eu nunca vou ignorar a voz e a posição dessas mulheres, e isso não é o Lingerie Day, mas não existe uma diferença entre mulheres tomando posições conscientes e sabendo de suas outras escolhas, e as mulheres que não? Não?

16 de janeiro de 2012

Da necessidade de um relacionamento.

"Você pode dizer que não precisa de ninguém, que não está interessada em homem nenhum, mas se fosse assim, você seria tão feliz, simpática e amigável quanto todos os outros que admitem que precisam de companhia e de alguém do lado."

Eu fui pega pela histeria de ter um namorado por um período que, aproximadamente, compreende dos meus 13 aos meus 18 anos. Isso é bem típico da adolescência, na verdade, é bem difícil encontrar alguém que escapou incólume. Mas havia algo que complicava bastante a minha situação: eu era feia. E com feia, eu quero dizer gorda. Vou deixar bem claro logo no início que esse foi, e ainda é, um dos maiores dos meus problemas, e nem tanto por mim mesma, mas pelo o que minha mãe (a mesma do post anterior, sabe), sempre disse e sempre fez. Demorou, mas eu fui aprendendo a lidar e aceitar quem eu sou, e isso é assunto para outro post, mas nesse período crítico que eu estou falando, influenciou muito.

Vejamos, no começo, eu ainda ouvia que eu tinha que me preocupar em ser inteligente e estudar, porque eu não tinha idade para namorados. Mas depois o discurso mudou. Se até então devia crescer intelectualmente, em determinado ponto a história mudou para como seria bom eu ter um namorado para eu "deixar de ser tão grossa e irritada". E se eu já ouvia isso antes, a ideia de que eu tinha que emagrecer para namorar, porque ninguém iria me querer do jeito que eu era, também se intensificou. De uma hora para outra, eu tive que começar a ouvir que pouco importavam minhas ambições literárias ou intelectuais, que eu deveria aceitar que todos querem amor e relacionamentos, e que eu sendo do jeito que eu era, nunca iria conseguir um.

Não queria fazer isso ser tanto sobre mim, porque na verdade é algo que é disseminado para todo mundo, e principalmente as mulheres. Os filmes sempre falam sobre isso, livros, músicas, novelas, seriados, comercias, todos eles passam até a exaustão esse conceito da necessidade do amor, de ter outra pessoa para ser feliz, completo e realizado. E não adianta dizer que não liga para o que a mídia diz, porque está por todos os lados - as pessoas vivem falando disso, e se preocupando com isso, até o ponto de parecer que elas falam e se preocupam com isso. Não importa se você escapou das milhares de matérias que a Capricho fez sobre namorados, meninos e relacionamentos. Não importa se você não leu Crepúsculo e nunca gostou dos filmes da Disney. Não importa se suas amigas são mulheres independentes e focadas na carreira, e seus pais te educaram num ambiente livre desse tipo de influência. Em algum momento, você vai se ver de frente com essa mensagem sendo transmitida em algum lugar. E a mensagem é: Sua felicidade depende de um relacionamento.

Homens também sofrem com isso. Seria injusto dizer que essa pressão não pende também para o lado deles, que não é exigido deles estar em relacionamentos. Mas, para eles, também são disseminados outros tipos de objetivos, como ter uma carreira de sucesso e cultivar diversos outros interesses que vão desde o automobilismo ao futebol, sem que mulheres estejam diretamente relacionadas a nenhum deles. Já as mulheres, mesmo que hoje em dia sejam incentivadas a ter carreiras e estudar, sempre fica bem claro que não se deve deixar de lado o objetivo maior de sua existência.

No final das minhas férias, eu, sem ter muito o que fazer, e ao invés de sentar com um livro e aproveitar meu tempo de maneira útil, resolvi assistir Sex and the City. Uma temporada e seis horas da minha vida depois, eu estava num estado totalmente alterado. Eu tinha acabado de ver quatro mulheres, com boas situações e carreiras que elas gostavam, passarem todo e qualquer momento de suas vidas falando, discutindo, conhecendo e se preocupando com homens. Em um momento ou outro a série até toca em uma questão menos banal e até interessante, inclusive sobre essa pressão sobre as mulheres, mas os momentos são tão raros que desaparecem nas cenas de compras e filosofias sobre relacionamentos. E isso não é um filme ou outro, é uma série de muito sucesso que por anos representou e foi referência para uma geração de mulheres. 

A citação que inicia esse post foi mandada para mim por alguém que, surpresa, é da minha família. Isso porque depois de muito tempo e disciplina, uma verdadeira batalha em para deixar de ser tão fixada, eu comecei a aprender que ter um namorado não era mais importante do que viver uma vida que me fosse satisfatória, cultivar meus interesses, fazer o que eu gostava e agir conforme eu acreditava, sem me moldar ou me conformar para merecer ter um homem para chamar de meu. Mesmo assim, tenho que ouvir que isso não passa de ilusão minha, porque se eu fosse mesmo feliz assim, seria dócil e simpática. 

O que eu posso dizer? Hoje, eu acredito que ter passado por esse período da minha vida sem estar em um relacionamento, sem me dedicar exclusivamente a ele e ficar obcecada com ele (que é o que eu acho que teria acontecido, dada minha personalidade e minhas disposições naquela época), foi essencial para que eu me tornasse quem eu sou hoje. Essencial para que eu pudesse ter usado meu tempo para cultivar outros interesses, me divertir com meus amigos, ter outra perspectiva sobre a vida. Mas mesmo assim, não é fácil, e vez ou outra eu começo a cair nesse pensamento fixo sobre ter um namorado.

Queria dizer, por último, que não é errado estar em um relacionamento. Eu acredito que as pessoas sejam felizes em boa parte deles, e todo mundo tem o direito de fazer o que quiser. O que eu estou questionando é a imposição para todos procurarem a mesma coisa, sempre. E as consequências que essas imposições trazem, como muitos casos em que alguém vai se sujeitar a diversos tipos de situações porque acredita que precisa ter um companheiro, ou uma companheira. Todo mundo deveria ser capaz de ficar sozinho, porque se você não consegue ficar só com você mesmo, não deveria estar com outra pessoa também. E isso não se aplica somente a mulheres em relacionamentos heterossexuais, se aplica a absolutamente todo mundo, porque essa mensagem é passada para todos, homens e mulheres, de qualquer orientação sexual, e em qualquer tipo de relacionamento. 

Esse tipo de pensamento me ocorreu pela primeira vez quando eu li esse post, logo que comecei a me interessar pelo feminismo. Eu recomendo seriamente a leitura dele, de verdade. A Cely trata muito bem sobre todas as consequências desse tipo de mensagem para as mulheres, e sobre o que pode ser feito para fugir dela. 

1 de janeiro de 2012

Sobre maus julgamentos. E a falta de conclusões.

Enquanto assistíamos o final de A Cor Púrpura, uma pessoa - uma mulher - faz o seguinte comentário:

"Se o padrasto dela não tivesse estuprado ela, ela não teria os filhos".

(Se alguém não conhece nada sobre o livro, ou o filme, recomendo conhecer. Eu me interessei em ler depois de ter visto uma recomendação, e passei os últimos minutos de 2011 terminando de lê-lo. Eu vou falar sobre a história e principalmente o final, então fica o alerta para quem estiver interessado em descobrir sozinho).

Mais de duas horas assistindo a história de uma mulher, pobre, negra, que foi estuprada por quem ela acredita ser o pai dela, teve dois filhos dele, teve esses filhos tirados dela, foi dada para casar com um homem que bate nela e foi separada por ele da irmã, que é a única pessoa que ela ama. Mais de duas horas da história dessa mulher, que não tem o mínimo de valor próprio e autoestima, e tem que passar por um longo processo de aprendizado para começar a lutar por ela mesma e encontrar alguma felicidade na vida. Então, no final dessa história, temos uma cena linda e estupidamente feliz considerando tudo que aconteceu até ali, onde a irmã dela retorna muitos anos depois, com os filhos dela. Essa mulher está abraçando esses dois filhos quando ocorre a alguém fazer esse comentário (eu vou colocar de novo para ficar bem claro):

"Se o padrasto dela não tivesse estuprado ela, ela não teria os filhos".

Demorou certo tempo para eu raciocinar e ver se entendia o que aquilo queria dizer. A Celie (a personagem principal que eu não nomeei no parágrafo anterior) é estuprada pelo padrasto. Tem dois filhos dele que depois são tirados dela. Muito tempo depois ela reencontra os filhos, no que provavelmente é o momento mais feliz da vida dela. Ela os abraça, chorando de felicidade:


Ah, e a Celie também é lésbica. Isso é muito importante. (Eu coloquei o amor da vida dela, a Shug, no último quadrinho, onde ela está sorrindo e observando.)

Então eu fiz a associação. O que o comentário quis dizer: Olha como ela está feliz, abraçando os filhos. Filhos que ela não teria porque ela é lésbica. Filhos que ela teve porque o padrasto dela a estuprou, e depois ela tornou-se infértil. Viu, que coisa? Se o padrasto dela não tivesse a estuprado, ela não teria filhos, porque ela é lésbica. E olha como ela está feliz, por ter filhos e revê-los.

A pessoa que disse isso foi a minha mãe.

Como alguém pode dizer isso, ou sequer ter essa linha de pensamento e fazer essa associação? E ainda resolver falar em voz alta, como um comentário engraçado/espirituoso? Veja, não estamos falando de uma pessoa completamente ignorante, de uma pessoa inerentemente misógina e homofóbica. Não estamos sequer falando de alguém que acha legal  ou aceitável ser "politicamente incorreto". Ela não estava querendo chocar, ou ser controversa. Ela só falou o que ela pensou na hora.

Acho que uma pessoa não precisa ser feminista ou militante pelos direitos LGBT para saber tudo que está errado nesse comentário. Entendo que pessoas envolvidas com essas causas tenham maior facilidade para identificar um discurso problemático assim, até porque conscientização é justamente isso. Porém, qualquer um saberia como isso é errado. De qualquer jeito, minha mãe, uma mulher digamos que comum, falou isso. 

Verdade seja dita, eu não sei o que pensar sobre isso. Tanto não sei que estou escrevendo aqui para ver se chego em algum lugar. Eis algumas alternativas em que eu cheguei:

  • Talvez até mesmo pessoas boas, que não são misóginas ou homofóbicas ou racistas, pensam coisas assim por estarem tão inseridas em uma sociedade que ainda perpetua esse tipo de ideia. 
  • Talvez seja normal pensar coisas assim quando não se tem muito conhecimento, e não é algo ruim, é só ignorância. 
  • Talvez minha mãe, e outras pessoas ao meu redor, sejam mais machistas e homofóbicas do que eu penso, e eu só não percebo porque abro concessões para elas, ou porque elas geralmente não expressem isso para todo mundo ouvir.

Se alguém souber, favor avisar. Verdade seja dita, muitas vezes eu não consigo chegar a uma boa conclusão. Esse blog foi criado há algum tempo, porque eu queria escrever sobre feminismo, o que eu ia aprendendo e concluindo com ele, mas eu nunca tinha escrito nada porque eu acho difícil dizer com certeza "é isso". 

No final, eu tive uma discussão feia com a minha mãe. Feia mesmo, porque eu falei para ela que não achava o que ela tinha dito aceitável, e que só uma pessoa muito problemática teria conseguido dizer algo assim.Estou aqui me perguntando se eu fui muito dura com ela, e se eu deveria ser mais compreensiva e menos explosiva. 

Como eu disse, não tenho muitas respostas.