25 de fevereiro de 2012

Quando está muito, muito próximo de você

Ano passado eu mudei de área na empresa em que trabalho, vindo para um departamento onde eu sou a única mulher. Eu gosto do que eu faço e costumo gostar das pessoas com quem eu trabalho, o que não me impede de ter alguns conflitos com eles. Já virou costume discutir, ou pelo menos questionar as visões dos "meninos" - o pensamento é que se querendo ou não eu vou ouvir o que eles dizem, posso pelo menos argumentar,  mesmo que isso não venha a mudar a opinião de ninguém. O que não quer dizer que eu fique o tempo todo insistindo e reclamando com eles, o que não só seria contra-produtivo, como também minha paciência tem limite.

Chegamos então ao ocorrido alguns dias atrás. Um deles, comentando o carnaval, falou sobre como viajar com a namorada impede parte da diversão inerente ao período, principalmente sair com amigos e azarar garotas na praia. Eu perguntei, meio distraída, se nunca tinha ocorrido para ele que talvez essas garotas não gostassem de ser cantadas, e se ele não achava que elas tinham o direito de andar na rua sem ter que ouvir isso. O cat calling é um tópico comum para mim e qualquer pessoa envolvida com questões de gênero, certo, então nada de anormal nisso.

Ele respondeu que não via problema nenhum, afinal, era algo não nocivo e lisonjeiro, oras. Ele nem ao menos cogitava que uma garota poderia não gostar de receber esse tipo de atenção. Eu perguntei se ele gostaria se uma mulher que ele não tivesse interesse, nem achasse atraente, falasse para ele o que ele costuma falar para as meninas na rua, ao passo que ele disse que não se importaria, sem contar que ele acreditava ser atraente o bastante para ter o direito de fazer isso com qualquer uma.

Nesse ponto eu ri e voltei a trabalhar, foi quando eu resolvi não insistir e reconheci derrota. E eu tinha esquecido completamente a conversa quando, a tarde, eu abri o site da Folha para a ronda diária de notícias, e vi essa. Nem tenho o que falar sobre o ocorrido em si, não é como se fosse novidade que coisas assim aconteçam. Esse homem ter uma arma e ter usado contra a mulher é outra problemática, e tirando isso, o que sobra é o já conhecido e comum machismo.

Quem se dignar a ler os comentários da matéria que eu linkei vai entender exatamente do que eu estou falando – e aqui eu vou tentar não insinua que, só de ser a Folha, já dá para ter uma idéia. Pouco relacionado ao assunto, mas é um péssimo hábito e defeito meu, ler esse tipo de comentário que eu sei que não vai me acrescentar em nada e só vai me deixar irritada. Continuando. Eu leio essas pessoas culpando a vítima, algumas até endossando o comportamento do homem, pouquíssimas demonstrando alguma noção, e entendo como nada mais do que uma amostragem do que a sociedade, no geral, pensa. Não tem nada de surpreendente ou inesperado ali. E eu sei e você sabe que é por causa dessa mentalidade que essas coisas continuam acontecendo.

Mas até então são anônimos na internet, pessoas sem face se escondendo atrás de um monitor. Eu não consigo imaginar esse comentarista da Folha. Eu sei o que ele pensa, como ele age, posso até caracterizá-lo como direitista, reacionário, misógino e de classe média, mas não tenho uma imagem física. De certo modo, mesmo ele sendo real, ele em si não existe. Isso até o momento em que eu falo sobre a notícia para o rapaz de alguns parágrafos acima, por estar relacionado com o que tínhamos discutido mais cedo.

E ele é o comentarista da Folha.

Eu ouço ele dizendo “O que ela esperava? Carnaval, na rua, às quatro da manhã? Vai ficar irritada, ofendida, com alguém dando atenção para ela?”. E ainda outro, entrando no assunto, “Homem nenhum aceita levar tapa na cara”. Ouço que é azar dela que ele estivesse armado, mas não era mesmo para ela fazer aquilo, rejeitá-lo, ofendê-lo. Eu ouço uma defesa do porte de armas, ouço esse garoto, que não tem mais do que 25 anos, faz faculdade, trabalha comigo, dizendo que tem uma arma e que não dá mesmo para controlar um homem armado.

Eu fico revoltada e chocada, mas a verdade é que eu já sabia que eles eram assim, só não tinha admitido. Eu sabia porque eu já tinha ouvido antes diversas “piadas” machistas, defesas à agressão, mas tinha falado para mim mesma que era só brincadeira deles, que eles não fariam isso de verdade. Mas em uma tarde, nessa tarde, para eles normal (e eles nem vão se lembrar depois dessa conversa!), eu entendo isso. Não são mais os anônimos, as pessoas sem nome nem face. São homens que eu conheço, que me tratam bem, que quando eu me esqueço, até considero legais.

São eles que, perdendo a calma, agridem essa mulher. Que um dia em que calha deles estarem armados, alcoolizados e mais uma conjuração de fatores, talvez matem essa mulher. E eles não estão mais na notícia, estão na minha frente.