29 de abril de 2012

Existe uma causa mais importante que outra?‏

Algumas semanas atrás, eu estava pensando em escrever para cá e me encontrava dividida sobre qual assunto iria tratar. Em um mesmo dia, duas notícias pontuaram o machismo neste país: o julgamento de um homem acusado pelo estupro de três garotas menores de 14 anos, e o panfleto distribuído em uma universidade do Paraná que, uma “brincadeira”, fazia apologia à assédio sexual e objetificação feminina. Enfim, dois casos adoráveis, e enquanto eu me questionava se falaria sobre um ou outro, me peguei pensando em qual era pior, e qual era mais importante.

Certa vez, essa minha amiga argumentava que furar orelhas de bebês para colocar brincos era uma forma de distingui-las desde cedo pelo gênero, e que era também uma forma de tortura por infligir a criança à uma dor desnecessária. Eu concordei que era utilizado para separar meninas de meninos, e não tinha nenhum propósito concreto, mas que era uma tradição social e, para mim, inofensiva. Comentei que circuncisão em bebês, aceita por se tratar de uma prática cultural, era ao meu ver bem pior, e por último, que tortura era um termo muito forte para se referir a algo que não dura mais que segundos, não dói tanto assim e a criança não vai se lembrar mais tarde.

A discussão continuou e, em determinado momento, eu disse que para a causa feminista, furar orelhas de crianças era o menor dos pontos a serem abordados e enfrentados porque, frente a tantos outros, era quase insignificante. Essa amiga respondeu que se eu, uma pessoa que se considerava alinhada ao movimento, que se mantinha informada e disposta a questionar, achava aquilo sem importância, já mostrava quanta importância, de fato tinha. Não tiro a razão dela.

Existe, de fato, lutas maiores e mais importantes que outras? Causas que mereçam maior atenção, que sejam mais essenciais? Por um lado, meu impulso inicial é afirmar que sim. Entre violência doméstica e brincos e bebês, para mim é óbvio qual é mais urgente. Por outro, ainda que três menores estupradas e um agressor inocentado seja algo que acarreta maiores danos às vítimas, ainda faz parte da mesma problemática que estudantes de direito que acham aceitável afirmar que uma mulher é obrigada a dar.

Tudo faz parte de apenas uma questão social, o ato de enfeitar crianças de meses de idade denotando a necessidade de uma imagem de beleza e delicadeza, o de tornar aceitável "brincar" com algo que na realidade afeta milhares de mulheres e está relacionado com a noção de que elas são inferiores, e o de possibilitar que o poder judiciário tenha como julgar vítimas, não agressores, e ainda o fazer com o argumento de "inocência perdida".

Ainda, é esse tipo de argumento que boa parte da sociedade adora utilizar para justificar qualquer tipo de crítica social, dizer é ridículo lutar por qualquer outra causa quando existem assuntos mais importantes a serem tratados como violência, corrupção e carga tributária. Então, minha resposta é que ainda que eu pense que é mais necessário questionar as decisões do STJ, o importante, na verdade, é questionar. É identificar, ao menos, que algo não está certo. E se opor a isso. Alice Walker disse que a melhor maneira de tirar o poder de alguém é fazê-lo acreditar que sua voz não tem importância, e isso é verdade. Independente do que você queira defender, priorizar, o necessário é não se calar, e não achar que não é importante.