7 de novembro de 2012

A Bela e a Fera – Um conto de fadas feminista

Era uma vez, em uma terra distante, um jovem príncipe que vivia em um maravilhoso castelo. Apesar de ter todos os privilégios possíveis, o príncipe era mimado, egoísta e indiferente às condições sociais das minorias. Certo dia, uma linda feiticeira, ao perceber o nível de alienação e futilidade em que ele se encontrava, o puniu transformando-o em uma horrível Fera, para que ele mesmo percebesse o que era estar em uma posição vista como inferior perante a sociedade.

Envergonhado, o príncipe se escondeu em seu castelo, sentindo pena de si mesmo ao invés de ir atrás de conhecimento para reverter sua própria situação de ignorância. A feiticeira havia dito algo sobre encontrar verdadeiro amor e aprender a tratar os outros como respeito para reverter o feitiço, mas como alguém poderia amá-lo, sendo ele tão horrível assim?

Enquanto isso, em uma pequena vila da França, vivia Belle, uma jovem feminista independente e conscientizada. Todos a julgavam e a limitavam por sua beleza, recusando-se a enxergar qualquer característica dela além de sua aparência física. Belle se aceitava como ela era, porém não queria ser reduzida somente a isso, e dedicava seu tempo expandindo suas visões de mundo através da leitura e da observação da vida cotidiana. A jovem sonhava em conhecer o mundo, porém sentia-se na posição de ajudar e cuidar de seu velho pai, Maurice, pois sabia como havia dificuldades em se ter uma idade avançada, e como a sociedade tinha um preconceito contra isso.

Ela era constantemente assediada por Gaston, um masculinista que, por considerar todas as mulheres da vila vadias por suas formas de se vestirem e se comportarem, acreditava ter encontrado na figura discreta de Belle a mulher perfeita para seus sonhos de uma esposa-servente. Enquanto outras mulheres exerciam sua liberação sexual ao se insinuarem para ele, Gaston continuava a perseguir aquela que o ignorava, e à noite, na taverna, ouvia de seus amigos que ele estava sendo colocado na “friend-zone”.

Em uma adorável manhã, o pai de Belle iniciou uma viagem, deixando a filha sozinha tomando conta da casa. Porém, ele se perdeu na floresta, e enquanto fugia de lobos que tentavam atacá-lo, acabou invadindo o castelo da Fera. O ex-príncipe, muito apegado ao conceito de propriedade, achou-se no direito de prender Maurice em um calabouço. Ao saber disso, Belle se ofereceu para tomar o lugar dele, evitando assim que o pai tivesse que permanecer em instalações com condições deploráveis.

A Fera, que não havia aprendido nada no período de tempo passado entre o feitiço e o momento que conheceu Belle, a tratou com agressividade e falta de educação. Belle estava convicta que a Fera era totalmente errada em tudo na vida, desde a maneira de tratar as pessoas (idosos em calabouços, para começar), até seus problemas com controle de raiva passando pelas posições políticas e sociais dele, o que não a tornava nada propensa a querer ter qualquer contato com ele. Assim, sozinha e isolada, a inteligente jovem travou relações com os serventes do castelo, criaturas objetificadas pelo seu patrão, com quem ela aprendeu valiosas lições sobre gentileza e composição musical. 

Após um surto de raiva da Fera, Belle tentou fugir e reconquistar sua liberdade, mas também foi atacada por lobos e precisou ser resgatada. Infeliz por ser obrigada a reconhecer que não possuía força física necessária para se defender contra uma matilha de animais furiosos, ela se viu obrigada a reconhecer que todos têm suas limitações, se dispondo então a cuidar das feridas da Fera, até porque ajudar os outros não machuca. Ele, em retribuição ao ato de gentileza dela, permitiu que ela tivesse acesso a todos os livros de sua incrível, extensa e jamais utilizada biblioteca. Assim, com algumas concessões de ambas as partes, a convivência deles melhorou consideravelmente.

Em uma mágica noite, eles compartilharam um agradável jantar e tiveram uma longa conversa, na qual Belle expôs a teoria básica feminista para a Fera, tentando fazê-lo reconhecer seus privilégios como homem cis e heterossexual. Ela falou sobre os males do machismo, rebatendo cada argumento desinformado que a Fera lançava contra ela, como “mas homens e mulheres realmente são diferentes”, “mas as mulheres não querem igualdade, querem privilégios” e “hoje em dia as mulheres já conquistaram todos os direitos possíveis, e até mais”.

Apesar de relutante, a Fera considerou o discurso Belle, o que fez com que o conceito que ela tinha dele melhorasse muito. Afinal, não é sempre que as pessoas já vêm conscientizadas, e Belle concluiu que disposição para mudança também era muito bom. No final da noite a Fera permanecia na mesma posição, ainda defendendo pontos de vista que Belle já tinha rebatido e destruído, mas talvez com um pouco mais de tempo ele tivesse finalmente declarado uma mudança de visão, se uma terrível notícia não tivesse escolhido aquele horário para chegar.

Justo quando ambos finalmente admitiam que apesar dos pesares eles estavam felizes com a companhia um do outro, Belle descobriu que seu pai estava sozinho e doente, após ser desacreditado por todos da sua pequena e cruel vila. Compreendendo que ele não tinha como manter nenhum ser humano prisioneiro, pois todos são livres para viver a própria vida e ninguém jamais pertenceria a ninguém, a Fera permitiu que ela fosse até o encontro de seu pai, mesmo que isso significasse nunca mais vê-la. 

Belle conseguiu resgatar seu pai, mas eles ainda estavam sujeitos a percepções arcaicas sobre doenças mentais, etarismo e ableísmo. Ela, em desespero, resolveu comprovar que o motivo do pai estar sendo considerado louco – ter dito que havia um monstro terrível vivendo em um castelo – era verdade, ao invés de rebater esses conceitos de loucura e a limitação das pessoas. Todos nós cometemos alguns (ou muitos)erros na vida.

Como era de se esperar, os habitantes da vila chegaram a conclusões precipitadas baseadas em puro preconceito, concluindo que a Fera era perigosa e deveria ser liquidada só porque de fato ele era um monstro, e não dos mais bonitos. Gaston, o caçador masculinista, seguindo seu papel idealizado de macho provedor, decidiu ir atrás da terrível criatura e livrar todos do perigo eminente. Assumindo finalmente o papel de heroína da sua própria história, Belle concluiu que era sua vez de salvar a Fera. Não só porque ele já tinha salvado ela em outra situação ou porque o motivo de uma multidão enfurecida estar indo atrás dele era porque ela tinha levado eles a isso (mesmo que não intencionalmente) mas porque era a coisa  certa a se fazer – se arriscar para salvar alguém, fazer valer sua força interna.

A Fera, ao ser informado que a população de uma pequena vila se aproximava para matá-lo, decidiu que estava deprimido demais com sua recente perda para se importar. Seus serventes objetificados tiveram que tomar a frente da proteção do castelo, porém não foram capazes de impedir que Gaston chegasse até seu patrão. Gaston, não feliz em tentar matar a Fera, lançou mão de um ataque psicológico, insinuando que uma pessoa como Belle jamais amaria alguém como a Fera, em um discurso padrão e muitas vezes eficaz.

Porém, naqueles últimos tempos, algo havia mudado no ex-príncipe. Os comentários de Belle o fizeram entender que os ideais de beleza e os papéis de gênero que a sociedade difundia não eram corretos, e não havia porque se sujeitar a eles. Gaston era somente um ser desprezível e misógino, incapaz de entender questões como respeito e igualdade – algo que a Fera já não podia mais ignorar. Revoltado com as injúrias que Gaston continuava dizendo, atacando mulheres, homossexuais, pessoas trans* e toda e qualquer minoria possível e existente, ele encontrou forças para lutar de volta, defendendo o que ele acreditava ser certo.

Belle chegou a tempo de ouvir o discurso inflamado que a Fera lançava contra Gaston. Porém, enquanto ele falava, o masculinista aproveitou para lançar-se fisicamente contra ele. Ao ver que a jovem havia retornado e encontrando forças no amor que sentia por ela, a Fera revidou o ataque, e com a ajuda de Belle (que não ia aceitar ficar só olhando) conseguiram encurralar Gaston, que por fim pediu clemência por sua vida. A Fera finalmente voltou-se para Belle, ainda surpreso por ela ter voltado quando ele havia a deixado ir, e ela ia iniciar um novo discurso sobre liberdade para fazer o que ela quisesse e se arriscar por quem ela bem entendesse quando Gaston, em uma típica manobra masculinista, resolveu atacar a Fera pelas costas.

Como todas as ações têm uma conseqüência, tão logo ele fez isso, Gaston foi lançado para trás por sua própria força empregada, se desequilibrou e morreu (não havia sido mencionado antes, mas eles estavam em um local alto). A Fera caiu atingida no chão, e Belle ia correr para pedir ajuda - o que é a atitude correta a se tomar quando alguém está ferido e você não tem qualificação para remediar - mas ele pediu que ela ficasse, pois ele tinha algo a dizer. Reconhecendo por fim seus sentimentos por ela, a Fera, antes de morrer, agradeceu Belle por ter mostrado para ele uma nova visão de mundo, por tê-lo ajudado a compreender que estava errado, e por não tê-lo abandonado mesmo quando ele era ignorante e não percebia isso.

Ela ia responder que ela não tinha abandonado ele porque ele não tinha deixado, porque os lobos a atacaram, e para salvar o pai dela. Mas ele havia reconhecido o erro e tentado revertê-lo, havia lutado contra a opressão do patriarcado, a valorizado enquanto uma mulher independente. Por fim, ela entendeu que também o amava, precipitando-se então para beijá-lo, sem pensar que ele era uma Fera, que estava morrendo, que ainda tinha um monte de gente tentando atacar o castelo.

A Fera sobreviveu, e o feitiço finalmente foi quebrado, pois pelo menos para Belle o príncipe já não era mais uma Fera, e sim um ser humano decente e justo, que a respeitava e a amava. Juntos, eles aboliram a posição dos serventes e os reverteram das suas condições de objetos, reestruturaram os terrenos do castelo, garantiram uma vida decente e digna para o pai de Belle e se empreenderam na missão de tirar a vila de toda aquela ignorância, garantindo os direitos de todos.

Apesar de não terem se casado, os dois permaneceram juntos, em um relacionamento feliz e saudável, lutando por ideais igualitários para sempre.
Fim.


* Eu não conheço, e nunca vi, traduções para os termos ageism e ableism. Não é obrigação de ninguém me educar, mas agradeço se alguém souber e me falar. Todas as críticas são bem vindas, sempre.