10 de fevereiro de 2013

Cassandra e Pandora


Cassandra e Pandora eram, antes de tudo, duas mulheres. Se seus nomes ficaram marcados nas páginas da história – mesmo que nas da mitologia – definitivamente não fora porque elas pediram por isso. Talvez devessem sentir-se lisonjeadas por ocuparem um espaço em meio a tantas outras pessoas, tantas outras tragédias, talvez devessem sertir-se vaidosas por terem seus nomes lembrados tantos anos após suas vidas terminarem.

Elas não se sentiam.

Cassandra e Pandora foram vítimas da luxúria dos homens. Amaldiçoadas pela superioridade e inconveniente humanidade dos deuses. Pandora fora a primeira, predecessora dos infortúnios que seguiriam tantas daquelas iguais a ela.  Não havia pedido por nada, não havia decidido nada. Somente fora, somente existira, somente ganhara dons que ela não havia solicitado e permitira-se um único segundo de falha, um lapso pelo qual não só ela como toda a humanidade pagariam. O erro de Pandora foi ter sido desejada, foi ter sido inescrupulosamente usada. Não era justo o erro de alguém ser na verdade o dos outros, mas nada naquele mundo era muito justo.

Cassandra, ao contrário, não nascera em circunstâncias não usuais. Cassandra até determinado momento tivera a vida normal de uma princesa usual, tivera sua liberdade para cometer algumas imprudências, para agir como se em algum momento sua beleza não fosse acabar sendo a causa de sua queda. A queda de Cassandra fora de certo modo gentil, até doce, no início. Viera também no disfarce de um presente, na irrecusável forma de dom e de conhecimento. 

Cassandra, em sua inocência da qual ela posteriormente se arrependeria, sentira-se de certa forma especial por ter sido escolhida por um deus. Fora somente quando a escolha dele se revelou como o que realmente era que Cassandra entendeu que aquele não era um mundo onde alguém na sua condição receberia algo sem haver um motivo maior escondido. Mas então ela já estava devidamente condenada, devidamente destinada a sofrer uma vida de infortúnios pelo único motivo de ter nascido mulher, ter nascido bela e ter nascido sem o poder de ter qualquer voz sobre as decisões dos homens.

Pandora e Cassandra encontraram-se após uma longa vida de penitência por crimes que não haviam escolhido cometer. Uniram-se e conversaram não sobre suas tragédias pessoais, mas em uma tentativa de entender o universo em que estavam. Sentaram-se e falaram longe do ouvido dos outros, longe da censura daqueles que tinham alguma voz sobre o curso dos acontecimentos e do julgamento dos que se sujeitavam a eles. Discutiram primeiro com base no que haviam conseguido assimilar de suas curtas experiências até aquele momento, compartilhando pensamentos até então guardados nelas mesmas, pensamentos que nunca haviam sido transmitidos a ninguém mais. Então pararam de discutir fatos e passaram a discutir hipóteses, sentimentos e impressões que nem mesmos elas já haviam tomado conhecimento.

Não chegaram a nenhuma resposta satisfatória, nenhuma grande conclusão, nada que pudesse trazer qualquer conforto ou ser classificado como grande esclarecimento. Mas encontraram um certo alívio ao saberem que não estavam sozinhas, ao descobrirem uma a outra, conhecerem alguém que entendia como elas se sentiam, pelo o que tinham passado, alguém que compartilhava seu destino.

Poderia ser o suficiente, mas não era.

(Não era porque Cassandra não precisava prever o futuro para saber por quanto tempo o mundo continuaria funcionando daquele modo, por quantos anos outras pessoas continuariam sendo negadas o direito de falar o que pensavam, agir da maneira que achavam correta e não serem julgadas por isso. Pandora nem ao menos sabia se chegaria o momento em que alguém não seria classificado de acordo com seu nascimento ou não seria imposto uma vida pela qual nada havia feito para merecer.)