8 de março de 2013

E o dia da mulher, parte II

Nesse último ano o meu feminismo mudou. Às vezes eu sinto como se ele fosse algo que eu tivesse superado, algo que veio e passou, mas não é isso - eu nunca parei de me definir como feminista, ou de concordar com o que o movimento defende, ou de participar de listas de discussão, e ler sobre o assunto diariamente. Eu continuo discordando de tudo que acho errado, continuo falando sobre isso, e escrevendo, mas é como se esse tempo que passou tivesse arrefecido minha paixão inicial.

Ano passado eu criei esse blog para compartilhar o que eu pensava e descobria no meu feminismo. Criei e distribui um zine, sugeri e participei de um grupo de intervenções no espaço urbano, fui na marcha das vadias. Ano passado eu lia teoria feminista, mandava emails para a SPM, entrava em ações de repúdio contra propagandas e declarações sexistas. Meu post do ano passado sobre o dia internacional das mulheres tem um tom inflamado, e eu lembro de ter passado o dia falando para todo mundo sobre o absurdo da redução da data a flores e bombons, explicando qual era o verdadeiro significado de se ter um dia da mulher.

E estamos aqui, um ano depois, e eu não encontro traços dessa revolta toda. Hoje eu vou compartilhar os textos interessantes que eu ler, discutir o assunto com quem vier abordá-lo comigo, agradecer eventuais parabéns e simplesmente deletar os emails que forem chegando. Mais tarde, na aula do meu professor sexista, vou ficar irritada com os comentários equivocados que eu sei que ele vai fazer, mas é mais provável que eu simplesmente faça uma expressão de desagrado e fique quieta, e se responder, o faça com calma. Enquanto ano passado eu provavelmente rosnaria para ele - quer dizer, eu fiz isso em diversas ocasiões, com diversas pessoas.

Em uma dessas respostas ríspidas e mal educadas que eu distribuí ano passado, a réplica que eu ouvi da minha irmã foi que se eu realmente estivesse convicta do meu feminismo, eu não precisaria ficar bradando e me afirmando para todo mundo. Eu ainda não concordo totalmente com ela, mas o sentimento que eu tenho hoje é que meu feminismo realmente amadureceu, passou a fazer mais parte de mim, e talvez por isso eu já não faço tudo que eu fazia. Por saber mais sobre o assunto do que eu sabia antes, ser mais convicta das minhas posições e mais ciente dos pontos onde eu ainda sou ignorante e preconceituosa, eu talvez não precise mais reafirmá-los para todo mundo, o tempo todo.

Ou então eu simplesmente perdi minha inspiração revolucionária, suprimida pelas preocupações com o trabalho, o último semestre da faculdade, as viagens que eu quero fazer, minha dieta. A Bruna que passou na Kalunga e saiu com uma caneta Sharpie achando que ia mudar o mundo agora está ocupada pensando na monografia e em como ganhar mais dinheiro - o que é uma perda, talvez?

Hoje, em um dia que marca a luta e a reivindicação, eu fico pensando se essa minha nova atitude é uma melhoria ou uma regressão.

Um comentário:

  1. Oi Bruna, sou leitor novo do seu blog.

    Acho que o fato de vc manifestar o seu feminismo pra deus e o mundo não fala nada sobre a sua convicção acerca do mesmo.
    Você pode muito bem estar 100% certa de seu feminismo e mesmo assim achar que a melhor opção é conversar e convencer os outros de que reduzir 8/3 a entrega de presentes, flores e demais símbolos da mulher do século XIX, submissa é um erro grotesco. E faria muito bem.
    Meus 8/3 geralmente se reduzem a lembrar as pessoas super excitadas com a promoção da marisa que quase um século de lutas merece mais reflexão do que a escolha entre o crédito ou débito.
    Talvez a sua escolha passividade frente as manifestações sexistas dos seus professores seja justamente o contrário: que vc está menos certa agora do seu feminismo do que estava antes.

    Continue postando,
    Jonas.

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